Novo relatório identifica corredores florestais críticos e rios aéreos essenciais para evitar que a Amazônia chegue a ponto de não retorno
Os rios aéreos que sustentam as florestas, a agricultura e a segurança hídrica em toda a Amazônia estão cada vez mais ameaçados pelo desmatamento e pela expansão das infraestruturas.
O white paper, “Mantendo os rios voadores fluindo: como o desmatamento na Amazônia brasileira ameaça as chuvas no Peru e na Bolívia”, divulgado pela Amazon Conservation, mapeia pela primeira vez os rios voadores que atravessam o continente sul-americano e seu papel em manter o ponto de inflexão da Floresta Amazônica sob controle.
Os rios voadores são caminhos sazonais de fluxos de umidade atmosférica que agem como rodovias transportando água na atmosfera, do Oceano Atlântico até a Cordilheira dos Andes, e fornecendo recursos hídricos vitais aos nove países que formam a Bacia Amazônica. A análise vai além da simples identificação da trajetória dos rios voadores invisíveis para identificar as florestas mais críticas para a manutenção desse sistema e as áreas onde o desmatamento e os projetos de infraestrutura planejados representam os maiores riscos a essas vias.
O relatório constata que as florestas e os ecossistemas do sudoeste da Amazônia, na Bolívia e no Peru, dependem dos rios voadores para mais de 70% de sua precipitação anual. À medida que o desmatamento avança ao longo dessas vias de umidade, a capacidade da floresta de reciclar a chuva enfraquece, aumentando a probabilidade de secas e do colapso do ecossistema. O estudo destaca o rio voador da estação seca como o fluxo de umidade mais vulnerável da Amazônia. Essas conclusões surgem após a grave seca na Amazônia de 2023–2024, a mais intensa já registrada, que causou impactos devastadores em toda a região. Na Bolívia, a produção de soja em Santa Cruz caiu 75%, enquanto as colheitas de batata na região de Puno, no Peru, diminuíram drasticamente. Os sistemas fluviais, a geração de energia hidrelétrica e as bioeconomias dependentes de florestas saudáveis, como a produção de castanha-do-pará, também foram severamente afetados.
“Os rios voadores são o motor invisível que sustenta a vida, os ecossistemas produtivos e a identidade no norte da Bolívia. No departamento de Pando, onde a cobertura florestal ainda mantém altos níveis de integridade, esse fenômeno climático não é um conceito abstrato; é o regulador direto dos ciclos produtivos das comunidades locais que dependem dos frutos produzidos por suas florestas”, afirma Daniel Larrea, diretor de Ciência e Tecnologia da Conservación Amazónica-ACEAA e autor principal Painel Científico para a Amazônia SPA).
Outra das principais conclusões do relatório é a importância estratégica da conservação das florestas no oeste do Brasil, particularmente no estado do Acre, onde as três vias fluviais aéreas sazonais convergem antes de transportar a umidade atmosférica em direção ao Peru e à Bolívia. Esse corredor crítico funciona como um gargalo para o ciclo hidrológico da Amazônia, tornando-o especialmente vulnerável a perturbações causadas pelo desmatamento e pela expansão da infraestrutura. A rota já atravessa regiões fortemente desmatadas em todo o Brasil, incluindo o sul do Pará, e enfrenta pressão crescente de projetos planejados de rodovias e infraestrutura que conectam o Brasil e o Peru. Entre os exemplos mais preocupantes está a rodovia BR-319, cuja pavimentação poderia provocar mais de 12 milhões de acres de desmatamento adicional e enfraquecer significativamente a capacidade da floresta de reciclar a precipitação em toda a Bacia Amazônica.
“Essas comunidades não têm representação nas decisões relativas ao licenciamento de infraestrutura ou à destinação de terras que aumentam o risco de desmatamento. O artigo defende que se elimine essa lacuna entre o impacto transfronteiriço e a tomada de decisões em escala nacional”, afirma Blaise Bodin, diretor de Estratégia e Políticas da Amazon Conservation.
Mapeamento de áreas estratégicas onde é necessária uma conservação prioritária
Para enfrentar as crescentes ameaças aos “rios voadores”, o relatório introduz o conceito de Territórios Críticos de Umidade: florestas em alto risco de desmatamento que desempenham um papel vital na reciclagem da umidade e na manutenção do fluxo dos “rios voadores”. Muitos dos Territórios Críticos de Umidade mais importantes da Amazônia coincidem com as Florestas Públicas Não Destinadas (FPND) do Brasil, o que as torna algumas das áreas de maior importância estratégica para esforços de conservação prioritários, visando manter o sistema de rios voadores. Atualmente, mais de 12 milhões de acres de floresta pública amazônica carecem de proteção legal formal, e muitos deles estão localizados diretamente dentro de trajetórias-chave dos rios voadores, deixando esses corredores atmosféricos críticos altamente vulneráveis a perturbações causadas pelos impactos do desmatamento impulsionado pela exploração madeireira, gritaria de terras, mineração, incêndios e outras atividades causadas pelo homem. De acordo com o relatório, proteger formalmente essas florestas poderia ser uma das formas mais eficazes de salvaguardar o ciclo hidrológico atmosférico da Amazônia e reduzir o risco de uma seca regional generalizada.
Entre as seis recomendações do relatório está o apelo para ir além da aplicação reativa da lei e adotar políticas coordenadas em toda a Amazônia que reconheçam o papel fundamental do Brasil na preservação dos “rios voadores” em todo o continente, além de intensificar os esforços de conservação e os investimentos nas áreas mais vulneráveis da Bolívia e do Peru. O relatório também destaca a necessidade de restauração florestal, estratégias de adaptação climática e uma base científica e tecnológica mais sólida para orientar as decisões de conservação.
“Em nível nacional, precisamos apostar ainda mais na ciência para compreender exatamente como a biodiversidade está respondendo às mudanças climáticas, tanto ao aumento das temperaturas quanto à redução das chuvas transportadas pelos rios aéreos. Paralelamente, devemos manter e expandir a conexão florestal entre as encostas dos Andes e as planícies amazônicas, criando e conservando esses corredores climáticos essenciais”, afirma a Dra. Corine Vriesendorp, diretora científica da Conservación Amazónica-ACCA no Peru e autora da SPA.
O prefácio do renomado cientista brasileiro e copresidente da SPA, Carlos Nobre, cujo trabalho pioneiro com o biólogo americano Thomas Lovejoy ajudou a moldar a compreensão global do ponto de não retorno da Amazônia, aborda como os tomadores de decisão podem utilizar essa análise em políticas e ações: “Este white paper Amazon Conservation representa uma contribuição importante e oportuna para esse conjunto de conhecimentos. Ao identificar as florestas mais críticas para a manutenção do transporte de umidade atmosférica, ele oferece um caminho prático da ciência à ação. A janela para agir ainda está aberta, mas está se estreitando. Fortalecer a resiliência dos rios voadores por meio de ações de conservação priorizadas e respaldadas pela ciência é um passo vital na direção certa. Este white paper um guia valioso e prático para fazer isso.”
O relatório foi elaborado pela Amazon Conservation em colaboração com pesquisadores e instituições parceiras em toda a Bacia Amazônica, incluindo o Institut des Géosciences de l’Environnement (IGE), a Universidade Federal de Santa Catarina, o IPAM, a FAS (Fundação Amazônia Sustentável), a Conservación Amazónica–ACCA e a Conservación Amazónica–ACEAA.
Leia o white paper: https://www.amazonconservation.org/publication/
Sobre a Amazon Conservation Association
A Amazon Conservation é uma organização internacional sem fins lucrativos dedicada à conservação que, há 25 anos, trabalha em prol de uma Amazônia próspera. A abordagem holística da organização concentra-se na colaboração com parceiros e aliados locais para proteger áreas selvagens, empoderar as pessoas e colocar a ciência e a tecnologia a serviço da conservação.
Acesse amazonconservation.org para obter mais informações.