A conectividade socioecológica no centro da participação da SPA na COP15 da CMS
Em 25 de março de 2026, o Painel Científico para a Amazônia SPA) participou de uma mesa redonda realizada durante a 15ª Conferência das Partes da Convenção sobre a Conservação das Espécies Migratórias da Fauna Selvagem (CMS COP15), em Campo Grande, Mato Grosso do Sul, Brasil. O evento, intitulado “O Papel Vital da Conectividade Socioecológica na Conservação da Biodiversidade de Água Doce e dos Meios de Subsistência Locais na Amazônia”, foi coorganizado pelo o SPA pela Amazon Waters Alliance (AAA), em colaboração com a Rede Amazônica de Informações Socioambientais Georreferenciadas (RAISG) e a Aliança da Amazônia do Norte (ANA).
A sessão reuniu representantes da sociedade civil, de instituições governamentais, do meio acadêmico e de organizações de pescadores para explorar o papel da conectividade socioecológica na preservação da biodiversidade de água doce e dos meios de subsistência em toda a Bacia Amazônica. A discussão destacou a importância do diálogo e da colaboração entre múltiplos atores para alcançar metas ambiciosas de conservação diante das crescentes pressões sobre as espécies de peixes migratórios, enfatizando a necessidade de respostas coordenadas em múltiplas escalas. Utilizando o bagre transamazónico, a dourada (Brachyplatystoma rousseauxii), como espécie emblemática, a sessão ressaltou as profundas interconexões entre ecossistemas, territórios e sistemas de governança em toda a Bacia Amazônica.
Guillermo Estupiñán - WCS, AAA
Ao abrir a sessão, o moderador Guillermo Estupiñán, Secretário Técnico da Aliança das Águas da Amazônia, destacou a colaboração entre o SPA outras redes regionais que atuam na conservação da conectividade amazônica. Ele enfatizou que a conectividade entre rios, várzeas e sistemas ecológicos continua sendo uma condição fundamental para manter as funções ecológicas da Amazônia e sustentar os meios de subsistência locais.
A mesa redonda contou com três apresentações complementares. Primeiramente, Mariana Varese, diretora do Programa Amazon Landscapes da Wildlife Conservation Society (WCS), coordenadora da Secretaria da AAA, membro do o SPADiretor Científico o SPAe autora principal da SPA, ressaltou a importância da ciência participativa, da pesquisa colaborativa e do conhecimento local para a compreensão e conservação das espécies de peixes migratórios em toda a sua área de distribuição. Ela destacou o papel de iniciativas como Ictio na geração de dados confiáveis por meio do monitoramento liderado por pescadores, e enfatizou a necessidade de fortalecer o compartilhamento de dados e a governança em toda a bacia para informar a tomada de decisões.
Vanessa Rodríguez, pesquisadora de pesca social do Instituto del Bien Común e presidente do Conselho da AAA, destacou o papel dos diálogos de conhecimento entre os pescadores. Ela enfatizou como as trocas entre povos indígenas e comunidades locais em diferentes territórios podem fortalecer a liderança, melhorar a governança da pesca e promover soluções com base local. Esses processos, observou ela, ajudam a preencher lacunas persistentes entre o conhecimento científico, as políticas públicas e as realidades no terreno.
Carolina Doria, secretária nacional de Monitoramento e Pesquisa Pesqueira do Ministério da Pesca e Aquicultura do Brasil e autora da SPA, destacou a importância socioeconômica dos peixes migratórios e apresentou evidências científicas sobre os impactos das grandes obras de infraestrutura nas espécies migratórias. Com base em estudos sobre o bagre-goliath, ela explicou como barragens hidrelétricas como Santo Antônio e Jirau interromperam rotas de migração de longa distância (por exemplo, 11.000 km), contribuindo para o declínio das populações. Ela também apontou pressões adicionais, incluindo mudanças no uso da terra, mudanças climáticas e sobrepesca, e pediu um alinhamento mais forte das políticas e abordagens de governança em toda a bacia hidrográfica.
Mariana Varese - Autora de WCS, AAA e SPA
Nas três intervenções, surgiu uma mensagem comum: a conservação dos peixes migratórios da Amazônia exige uma ação coordenada que integre ciência, políticas públicas e o conhecimento e a participação dos povos indígenas e das comunidades locais. Os palestrantes enfatizaram que alcançar esse objetivo em grande escala depende do fortalecimento da colaboração entre instituições e territórios, da melhoria do uso do conhecimento científico existente e do apoio a sistemas de governança inclusivos.
A discussão que se seguiu reforçou esses pontos, com a participação ativa de líderes da comunidade pesqueira, que compartilharam suas experiências e destacaram a importância de se envolverem diretamente nos processos de tomada de decisão. Os participantes também discutiram caminhos práticos a seguir, incluindo sistemas de monitoramento colaborativo, plataformas de intercâmbio de conhecimento e estratégias de gestão em escala de bacia hidrográfica.
A sessão também ocorreu num contexto político mais amplo, marcado por um importante marco na 15ª Conferência das Partes da CMS. Os países da Amazônia aprovaram por consenso o Plano de Ação Regional para os Peixes-gato Migratórios da Amazônia, estabelecendo uma estrutura coordenada para conservar essas espécies em toda a bacia. O plano enfatiza a necessidade de manter a conectividade fluvial, fortalecer o conhecimento científico, indígena e local e promover práticas pesqueiras sustentáveis. Esse resultado reforça muitas das principais mensagens destacadas durante a mesa redonda, particularmente a importância da cooperação em toda a bacia e de abordagens integradas para a conservação.
A sessão proporcionou uma oportunidade para divulgar as principais mensagens do o SPAem andamento o SPAsobre conectividade, especialmente no que diz respeito aos sistemas de água doce e às espécies migratórias. Embora tivesse um escopo específico e técnico, o evento contribuiu para discussões mais amplas na COP15 da CMS sobre a importância de manter a conectividade ecológica para preservar a biodiversidade e os meios de subsistência na Amazônia.