Vozes Jovens pela Conectividade da Amazônia
O que acontece quando os jovens se reúnem para discutir conectividade, ciência e o futuro da região? Mais do que um simples debate, surgem reflexões importantes sobre a sociobioeconomia, a produção de conhecimento e o papel da nova geração na construção de caminhos rumo a uma Amazônia sustentável e resiliente.
Esses foram alguns dos temas centrais do webinar “Vozes Jovens pela Conectividade da Amazônia”, realizado em 27 de março de 2026, organizado pelo Comitê Consultivo de Jovens YAC) do Painel Científico para a Amazônia SPA). O evento reuniu membros do YAC e representantes de organizações internacionais lideradas por jovens ou voltadas para a juventude para apresentar o Manifesto da Juventude Amazônica do YAC e discutir formas de fortalecer a participação dos jovens nas agendas científica e ambiental da região.
Apresentação do Manifesto da Juventude Amazônica
A primeira parte do webinar foi dedicada à apresentação do Manifesto da Juventude da Amazônia: Vozes pela Conectividade e Ação Climática, lançado oficialmente na COP30 em novembro de 2025 e desenvolvido por meio de um processo participativo liderado pelos membros do YAC.
Pedro Neves de Castro, membro do YAC, economista e doutorando em Desenvolvimento Socioambiental (NAEA/UFPA), iniciou a apresentação descrevendo as origens do manifesto e o processo coletivo por trás dele. Ele destacou que a iniciativa surgiu da mobilização da juventude amazônica que buscavam fortalecer espaços de diálogo e colaboração regional. O processo reuniu as perspectivas de mais de 200 jovens de todos os países da Amazônia por meio de cinco oficinas, culminando na consolidação de suas contribuições em um documento compartilhado.
Em seguida, Gustavo Nascimento, membro do YAC e estudante de Estudos Ambientais e Antropologia na Universidade de Brandeis, apresentou as principais conclusões do manifesto. Ele enfatizou a compreensão da Amazônia como um sistema vivo e interdependente, no qual as dimensões ecológicas, socioculturais e econômicas estão profundamente interligadas. Essa perspectiva está em consonância com o Relatório de Avaliação da Amazônia 2025 Conectividade da Amazônia para um Planeta Vivo, e se reflete no Manifesto da Juventude. Ele também destacou os principais desafios identificados pelos jovens, incluindo o desmatamento, os conflitos territoriais, o predomínio de modelos econômicos extrativistas e a exclusão dos jovens dos processos de tomada de decisão.
Para encerrar este segmento, Nohora Quiguantar, membro do YAC e bióloga indígena colombiana, apresentou as recomendações do manifesto dirigidas às principais partes interessadas, incluindo líderes políticos, povos indígenas e comunidades locais, o setor privado, a academia e a sociedade civil. Entre as principais propostas estão o fortalecimento de políticas públicas integradas, a garantia dos direitos territoriais e a ampliação do acesso ao financiamento climático. Ela também enfatizou a importância de promover uma ciência ética e colaborativa, reforçar a governança territorial e aumentar a participação dos jovens nos processos de tomada de decisão.
Juventude em Ação: Iniciativas que fortalecem redes e oportunidades
A segunda parte do webinar contou com apresentações de representantes de iniciativas voltadas para a juventude e de cooperação internacional, que também compartilharam suas contribuições para o manifesto.
Tosana Toben, da Aliança Global pelos Direitos da Natureza, destacou a importância do Manifesto da Juventude para a educação e apresentou o projeto Floresta Escola como uma iniciativa para fortalecer as oportunidades educacionais para os jovens da Amazônia. Ela também compartilhou o trabalho da rede no apoio a jovens pesquisadores e líderes engajados na defesa dos Direitos da Natureza. Toben é pesquisadora em ecologia política feminista e defensora dos Direitos da Natureza; dentro da GARN, ela co-lidera o Youth Hub e atua em seu Comitê Executivo.
Em seguida, Ana Alice Tavares, da Associação Internacional de Estudantes de Silvicultura, reforçou a dimensão ecológica destacada no Manifesto da Juventude e discutiu como ela pode ser implementada por meio de oportunidades de treinamento e capacitação para jovens nas áreas de ecologia e silvicultura, enfatizando o papel do intercâmbio acadêmico e da cooperação internacional. Tavares é doutoranda em Diplomacia Ambiental com mestrado em Silvicultura Tropical, e sua pesquisa se concentra na cooperação para o desenvolvimento com comunidades tradicionais na Amazônia.
Ao encerrar a sessão, Ingrid Silva, da COJOVEM – Cooperação da Juventude Amazônica para o Desenvolvimento Sustentável, destacou como o Manifesto da Juventude ressoa entre os jovens amazônicos. Ela enfatizou a cultura como uma dimensão fundamental na discussão e apresentou iniciativas voltadas para o fortalecimento da liderança juvenil e a promoção do engajamento cívico em toda a região. Silva é agrônoma do Pará e atua como Gerente de Comunidade e Engajamento na COJOVEM.
Debates sobre o futuro
O debate em plenário reuniu os seis palestrantes para refletir sobre como traduzir as ideias do manifesto em ações concretas. Três temas principais surgiram da troca de ideias:
O primeiro foi socio-bioeconomia, considerada um dos caminhos mais promissores para conciliar a conservação ambiental e o desenvolvimento na Amazônia. Os participantes enfatizaram a importância de fortalecer as cadeias de valor baseadas na biodiversidade, bem como de ampliar as políticas públicas e os investimentos para apoiar esse setor.
Outro tema central foi o papel dos povos indígenas e das comunidades locais no meio acadêmico. A discussão destacou a necessidade de aumentar a presença desses grupos nas universidades e nos centros de pesquisa, ao mesmo tempo em que se promovem processos de coprodução de conhecimento que reconheçam e valorizem os diversos sistemas de conhecimento.
Também foi discutido o papel dos jovens na pesquisa científica . Apesar do crescente interesse dos jovens da Amazônia por carreiras científicas, ainda existem barreiras significativas, especialmente no que diz respeito ao acesso à educação, ao financiamento e às redes de pesquisa.
O que vem a seguir?
O Manifesto da Juventude Amazônica: Vozes pela Conectividade e Ação Climática representa um passo significativo para fortalecer a participação da juventude amazônica nos debates globais sobre clima, biodiversidade e desenvolvimento. Baseado em um processo participativo e em uma visão regional compartilhada, o manifesto apresenta perspectivas concretas sobre conectividade e as transformações necessárias nas dimensões ecológica, sociocultural e econômica.
O desafio que temos pela frente consiste em transformar essas propostas em políticas públicas, agendas de pesquisa e iniciativas práticas que fortaleçam efetivamente a conectividade em toda a Amazônia. Isso requer uma colaboração contínua entre a ciência, as políticas públicas e a sociedade, bem como a inclusão significativa dos jovens nos espaços de tomada de decisão.
Nesse contexto, o Comitê Consultivo de Jovens YAC) do Painel Científico para a Amazônia continuará a promover essa agenda, fomentando o diálogo, amplificando as vozes dos jovens e criando oportunidades de engajamento. Isso inclui iniciativas como o “Conversas para A Amazônia Que Queremos”, a participação em eventos importantes e contribuições para os resultados do SPA, garantindo que as perspectivas e prioridades da juventude amazônica continuem sendo parte ativa das discussões regionais e globais.