Vozes em defesa da Amazônia se reúnem na Bolívia
De 2 a 5 de março de 2026, o Painel Científico para a Amazônia (SPA) realizou sua reunião anual em Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia. O SPA reuniu membros de sua liderança, do Comitê Diretor Científico, dos Autores Principais, Comitê Consultivo de Jovens YAC), membros bolivianos e da Secretaria para discutir as questões mais urgentes que a região amazônica enfrenta. A reunião teve como objetivo estabelecer as bases para o plano estratégico do Painel para os próximos anos.
IV Conferência pela Amazônia Que Queremos
O encontro teve início na manhã do dia 2 de março, quando o SPA com o apoio da Universidade Privada Boliviana (UPB) e SDSN Bolívia — organizou a IV Conferência pela Amazônia Que Queremos. Este evento deu continuidade ao legado das edições anteriores realizadas em Belém em 2023, Bogotá em 2024e Quito em 2025. Para esta edição, o SPA representantes governamentais, organizações da sociedade civil e líderes indígenas da Bolívia para discutir questões urgentes que afetam a Amazônia. Valeria Bacarreza, apresentadora e chefe de Design do Conservation Strategy Fund, atuou como mestre de cerimônias.
Carlos Nobre, copresidente da SPA, discurso de abertura
Discurso de abertura
O evento teve início com as palavras de boas-vindas do Dr. Oscar Molina Tejerina, reitor da UPB Bolívia e presidente da SDSN Bolívia, que falou sobre os esforços da universidade e da Rede de Soluções para o Desenvolvimento Sustentável (SDSN) da ONU na Bolívia para promover o desenvolvimento sustentável, bem como sobre suas estratégias de engajamento com instituições públicas e privadas.
A conferência prosseguiu com as palavras de abertura de Emma Torres, vice-presidente para as Américas e Parcerias Estratégicas da SDSN e coordenadora estratégica o SPA. Ela destacou a importância da Bolívia para a região e o papel fundamental do Painel, à medida que a Amazônia se aproxima de um potencial ponto de não retorno. Ela também enfatizou a importância de desenvolver o SPA Plano o SPA com vistas a 2030, um ano crucial para os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) e para os esforços globais de mitigação das mudanças climáticas. Após suas considerações, José Luis Llanos Rocha, vice-ministro de Planejamento Estratégico, proferiu um discurso em nome do Ministério de Planejamento do Desenvolvimento e Meio Ambiente, destacando os esforços atuais do governo relacionados ao desenvolvimento sustentável na Amazônia boliviana.
O evento prosseguiu com o discurso de abertura de Ana Marietta Colanzi Forfori, diretora executiva do Fundo Nacional de Desenvolvimento Florestal (FONABOSQUE). Em sua intervenção, ela enfatizou a importância da Amazônia boliviana para a região e para o mundo, bem como o que descreveu como o “mandato inegociável de protegê-la”. Ela destacou o compromisso do Estado com o financiamento da sociobioeconomia como uma estratégia clara para a conservação da Amazônia, chamando-a de “um imperativo científico, moral e vital”. Após esse discurso, o Dr. Carlos Nobre, copresidente da SPA, fez uma intervenção focada na proximidade da Amazônia de um ponto de não retorno no papel crucial que a ciência, juntamente com o Conhecimento Indígena e Local, pode desempenhar para evitá-lo.
Primeiro painel de debate - IV Conferência pela Amazônia Que Queremos
A Amazônia à beira de um ponto de não retorno: política, meio ambiente e disrupção
O primeiro painel de discussão da conferência teve como tema “A Amazônia à beira de um ponto de não retorno: aspectos políticos, ambientais e disruptivos”. Emma Torres atuou como moderadora, dando as boas-vindas a um painel de especialistas que incluiu o Dr. Manuel Arellano Ramírez, presidente da Academia Nacional de Ciências da Bolívia; a Dra. Lilian Painter, diretora da WCS Bolívia e autora principal do SPA; Ana Marietta Colanzi Forfori, diretora executiva da FONABOSQUE; Ruth Alipaz, defensora dos direitos indígenas e ambientais e autora colaboradora do SPA; e Eduardo Forno, diretor executivo da Conservation International Bolívia.
As discussões durante este painel destacaram a urgência de promulgar leis que possibilitem o desenvolvimento sustentável na Amazônia, mantendo a conectividade da região. Os participantes debateram as principais ameaças que afetam atualmente a região, incluindo o desmatamento e a degradação, as inconsistências nas políticas públicas, a mineração, as atividades ilegais, os grandes projetos hidrelétricos e a exploração e extração de combustíveis fósseis, fatores que causam profundos impactos socioambientais. O painel também enfatizou a necessidade de deter o desmatamento, fortalecer a capacidade, promover o diálogo intercultural entre os principais atores — incluindo governos e o setor privado — e apoiar soluções já em implementação nos territórios, como o ecoturismo.
Segundo painel de debate - IV Conferência pela Amazônia Que Queremos
Conectividade na Amazônia: ameaças, oportunidades e caminhos coletivos para a ação
O segundo painel da conferência, intitulado “Conectividade na Amazônia: ameaças, oportunidades e caminhos coletivos para a ação”, foi moderado pela Dra. Lykke Andersen, diretora executiva da SDSN Bolívia. Entre os participantes estavam a Dra. Mónica Moraes, professora e pesquisadora do Herbário Nacional da Bolívia e da Universidad Mayor de San Andrés (UMSA), e autora principal do SPA; Alfonso Llobet Querejazu, diretor sênior de Operações Estratégicas da WWF Bolívia; Ana Lía Gonzáles Carrasco, gerente de projetos da Fundación Amigos de la Naturaleza (FAN Bolívia); Dr. Jorge Ibarnegaray Urquidi, professor de Bioética na Universidade Católica Boliviana e professor de Filosofia da Natureza no Instituto de Estudos Teológicos do Seminário de San Lorenzo; e Tomás Candia, da Confederação de Povos Indígenas do Oriente Boliviano (CIDOB).
Este diálogo compartilhou insights importantes do Relatório de Avaliação da Amazônia 2025 do SPA (AR2025), lançado no final do ano passado na 30ª Conferência das Partes (COP30), que coloca a conectividade amazônica no centro da discussão. A conectividade é essencial para sustentar os ciclos climático e hídrico, a biodiversidade e os meios de subsistência dos povos, não apenas para a região, mas também para o mundo. A discussão revisitou várias das ameaças levantadas no painel anterior, observando que elas contribuem para a fragmentação da bacia. Os participantes também discutiram atividades para manter a conectividade sociocultural e ecológica, incluindo inovação tecnológica, mecanismos de financiamento, diálogo com as partes interessadas — incluindo povos indígenas e comunidades locais —, fortalecimento da governança territorial, monitoramento comunitário, melhor gestão de áreas protegidas em todas as categorias e o desenvolvimento e restauração de corredores ecológicos. O painel concluiu com uma importante reflexão sobre a responsabilidade ética e moral envolvida na proteção da Amazônia.
Considerações finais
Após os painéis de discussão, o Dr. Martín von Hildebrand, Secretário-Geral da Organização do Tratado de Cooperação da Amazônia (OTCA), participou virtualmente para reafirmar o compromisso da OTCA com a conservação e o desenvolvimento sustentável da Amazônia. Ele enfatizou a importância da colaboração interinstitucional e transfronteiriça, bem como do diálogo que entrelaça a ciência ocidental com os sistemas de conhecimento indígenas e locais.
Para encerrar a IV Conferência pela Amazônia Que Queremos, a Dra. Marielos Peña-Claros, copresidente do SPA, proferiu considerações finais que reuniram as principais ideias levantadas ao longo dos painéis e discursos. Ela enfatizou que a conectividade amazônica é uma solução central para a crise climática global e convidou o público a refletir sobre as aspirações coletivas para a Amazônia. Ela destacou que essas aspirações só podem ser alcançadas por meio de um diálogo intercultural e interinstitucional que reúna todos os atores-chave à mesa de discussões. Somente por meio da ação coletiva, observou ela, será possível manter a conectividade sociocultural e ecológica da Amazônia.
Ao saírem do auditório, os participantes puderam ver uma série de pôsteres científicos expostos do lado de fora do teatro, elaborados por estudantes universitários e representantes de organizações da sociedade civil.
Reunião de organizações da sociedade civil
Reuniões de envolvimento das partes interessadas
À tarde, o SPA mais duas reuniões, aproveitando ao máximo sua presença na Bolívia.
O primeiro foi um diálogo entre o Painel e representantes de organizações da sociedade civil na Bolívia, com o objetivo de discutir as principais conclusões do AR2025 suas implicações para o país. Entre os participantes estavam representantes de diversas organizações nacionais e internacionais e instituições acadêmicas, incluindo WWF, WCS, Conservation International, FAN-Bolivia, Conservation Strategy Fund (CSF), Conservación Amazónica ACEAA, Fundación para la Conservación del Bosque Seco Chiquitano (FCBC), Universidade Católica Boliviana, FONABOSQUE e Ecoconsult, bem como organizações indígenas, como a Coordenadora das Organizações Indígenas da Bacia Amazônica (COICA) e a Confederação dos Povos Indígenas do Leste da Bolívia (CIDOB).
A reunião abordou várias questões críticas para a Amazônia boliviana, incluindo os principais fatores que impulsionam o desmatamento, a expansão do narcotráfico e da mineração em territórios amazônicos, os impactos da expansão agrícola e da contaminação na qualidade da água, bem como os desafios relacionados à governança territorial, às invasões de terras e à proteção dos territórios indígenas.
Entre as principais conclusões destacou-se a importância de fortalecer a base científica para a tomada de decisões, melhorar a disponibilidade e a divulgação de informações técnicas aos formuladores de políticas, desenvolver ferramentas práticas para a gestão comunitária dos recursos naturais e promover uma maior cooperação regional e transfronteiriça para enfrentar desafios comuns, como a criminalidade ambiental e as mudanças no uso da terra.
O dia foi encerrado com uma reunião com representantes do setor financeiro boliviano, organizada em conjunto coma WWF Bolívia. O diálogo explorou como as evidências científicas podem ajudar a orientar os investimentos e a tomada de decisões financeiras na região amazônica. Entre os participantes estavam instituições do sistema financeiro boliviano, como o Banco de Desenvolvimento Produtivo (BDP) e a Capital+ SAFI.
Durante o debate, os cientistas do SPA apresentaram os principais desafios enfrentados pela região, incluindo o aumento da frequência de secas, incêndios e inundações associados às mudanças climáticas, bem como o risco de atingir pontos de inflexão ecológicos caso as tendências atuais de desmatamento continuem. Os participantes também discutiram alternativas para promover economias sustentáveis na Amazônia, como o fortalecimento das sociobioeconomias, o desenvolvimento de cadeias de valor baseadas na biodiversidade e o apoio a iniciativas de restauração da paisagem. Houve amplo consenso de que o setor financeiro pode desempenhar um papel fundamental na transição para modelos de produção mais sustentáveis, desenvolvendo instrumentos financeiros inovadores, aprimorando a rastreabilidade dos investimentos e apoiando atividades econômicas que reduzam a pressão sobre as florestas, ao mesmo tempo em que fortalecem as economias locais.
Gabriela Salinas, facilitadora do workshop
Workshop de Planejamento Estratégico
De 3 a 5 de março, o SPA realizou seu Workshop de Planejamento Estratégico 2026–2030 nas nstalações da UPB em Santa Cruz. Esse espaço de trabalho colaborativo teve como objetivo definir a direção estratégica do Painel para os próximos anos, por meio da análise das lições aprendidas recentemente, do acordo sobre prioridades científicas e da definição de produtos e mecanismos de trabalho para aumentar o impacto da ciência nas políticas públicas para a Amazônia. Os participantes também discutiram propostas para fortalecer a governança do Painel, aprimorar estratégias de engajamento das partes interessadas e de comunicação, e promover o intercâmbio de conhecimento com os outros Painéis de Ciência das Florestas Tropicais da SDSN.
À medida que a Amazônia se aproxima de limiares ecológicos críticos e o mundo se aproxima de um aumento de 1,5 °C nas temperaturas globais até 2030, o workshop se concentrou na identificação de temas científicos prioritários para os próximos anos, a fim de contribuir para enfrentar esses desafios. Entre eles estão: conectividade, resiliência da Amazônia e pontos de não retorno, impactos das mudanças climáticas, estratégias de adaptação e resiliência, sociobioeconomias, economias ilegais e justiça social, e restauração. Também foram discutidos temas complementares, incluindo mecanismos financeiros, saúde socioambiental, contaminação, segurança alimentar, a Amazônia urbana e o entrelaçamento dos sistemas de conhecimento indígenas e científicos.
Por fim, o encontro em Santa Cruz também marcou a gravação de dois episódios da segunda temporada do “Conversas pela Amazônia Que Queremos” , uma iniciativa liderada pelo Comitê Consultivo de Jovens (YAC) do SPA .
Quatro dias de reuniões, colaboração e intercâmbio marcaram um avanço significativo para o Painel. Eles criaram novas oportunidades de parceria e fortaleceram a presença do SPA na região. Os encontros com a sociedade civil, a academia e o setor financeiro — juntamente com diálogos envolvendo representantes dos setores público e privado — prepararam o terreno para o trabalho que está por vir: iniciativas transfronteiriças e multissetoriais baseadas no diálogo intercultural e em soluções holísticas enraizadas nas realidades locais. A integração da ciência com o Conhecimento Indígena e Local foi um foco central, ao lado das vozes da juventude e da importância de manter conversas intergeracionais. O encontro em Santa Cruz foi, sem dúvida, mais um marco no caminho rumo #AAmazôniaQueQueremos.