O SPA da PARLAMAZ: Levando os melhores conhecimentos científicos disponíveis aos formuladores de políticas da Amazônia

Em 13 de julho de 2026, o Painel Científico para a Amazônia SPA) participou de uma sessão de trabalho estratégica do Parlamento Amazônico (PARLAMAZ) — órgão permanente de cooperação e integração parlamentar que reúne os congressos nacionais dos países da Bacia Amazônica — realizada no Congresso do Peru, em Lima. A sessão marcou o encerramento do atual ciclo de trabalho da Delegação Peruana ao PARLAMAZ, ao mesmo tempo em que serviu como reunião de transição com o novo Senado e a nova Câmara dos Deputados.

A SPA foi representada virtualmente por membros de seu Comitê Diretor Científico: Jhan-Carlo Espinoza e Mariana Varese, que fizeram a apresentação principal, com Germán Poveda e Paulo Moutinho atuando como debatedores. Da Secretaria da SPA, também estiveram presentes a Coordenadora Estratégica Emma Torres, a Gerente Sênior de Programas Isabella Leite Lucas e o Pesquisador Sênior Carlo Angeles.

Levando a ciência da Amazônia para a mesa legislativa

A sessão foi aberta pela deputada Karol Paredes Fonseca, vice-presidente do PARLAMAZ em representação do Peru, que deu as boas-vindas aos participantes e apresentou o Relatório Geral do atual ciclo de trabalho do PARLAMAZ. Suas palavras deram o tom para uma sessão que colocou a ciência e a cooperação regional no centro da agenda legislativa.

A participação da SPA centrou-se na apresentação das principais conclusões do Relatório de Avaliação da Amazônia 2025: Conectividade da Amazônia para um Planeta Vivo (AR2025). O enquadramento foi direto desde o início: o PARLAMAZ, e o Peru em particular (como único país a tê-lo institucionalizado formalmente em sua governança), representa um dos espaços mais estratégicos para traduzir a ciência em ação legislativa.

Jhan-Carlo Espinoza e Mariana Varese apresentaram as evidências científicas sobre a conectividade da Amazônia e suas perturbações, destacando que a Amazônia não é apenas uma floresta, mas um sistema profundamente interconectado que une ecossistemas, ciclos hídricos, povos e economias em todo o continente. Entre as principais mensagens compartilhadas:

  • A Amazônia regula o ciclo hidrológico da América do Sul por meio dos “rios voadores” gerados pela evapotranspiração da floresta, sendo que aproximadamente 50% das chuvas que atingem os Andes peruanos e bolivianos têm origem nas florestas amazônicas.

  • As secas e inundações extremas aumentaram significativamente tanto em frequência quanto em intensidade: em Manaus (Brasil), por exemplo, o que antes era uma inundação extrema a cada 20 anos passou a ocorrer a cada quatro anos desde 2000.

  • Entre 10% e 47% das florestas amazônicas podem sofrer perturbações combinadas até 2050, o que pode desencadear transições ecossistêmicas irreversíveis.

  • A degradação ambiental aumenta diretamente os riscos à saúde: para cada quilômetro quadrado desmatado, são registrados 27 novos casos de malária.

A apresentação abordou a relação direta entre a degradação ambiental e a saúde pública. Com base em AR2025 3AR2025 : Conservação de Ecossistemas e Sua Conectividade para a Promoção da Saúde na Amazônia, a SPA defendeu a abordagem “One Health” como um marco integrado para enfrentar esses desafios de maneira coordenada. As recomendações específicas incluíram: reconhecer o manejo, a conservação e a restauração florestal como componentes da atenção pré-ventiva à saúde; promover a cooperação multissetorial entre os níveis de governo e a cooperação internacional; monitorar e responder às mudanças ambientais; integrar indicadores de saúde pública, biodiversidade e desmatamento entre os países da Amazônia; realizar avaliações de risco nacionais e transfronteiriças; e fortalecer tanto as redes de atenção primária à saúde quanto os sistemas comunitários de saúde interculturais.

A apresentação da SPA foi encerrada com as cinco principais recomendações do Relatório de Avaliação da Amazônia 2025, instando os legisladores a:

  1. Preservar e restaurar a conectividade ecológica e sociocultural da Amazônia.

  2. Apoiar os povos indígenas e as comunidades locais na preservação dessa conectividade e na mitigação das mudanças climáticas.

  3. Promover condições que possibilitem as sociobioeconomias.

  4. Promover a colaboração transfronteiriça para gerenciar recursos compartilhados e coibir as economias ilegais.

  5. Criar mecanismos financeiros em grande escala para apoiar a conservação e a restauração das florestas e dos rios.

Ciência, Saúde e a Amazônia: Uma Agenda Comum

César Vladimir Munayco Escate, diretor-geral do Centro Nacional de Epidemiologia, Prevenção e Controle de Doenças do Ministério da Saúde do Peru, apresentou a situação atual da malária no país e sua transição de uma estratégia de controle para uma estratégia de eliminação, observando que mais de 90% dos casos de malária no Peru estão concentrados em Loreto. A intervenção da SPA reforçou esse apelo à ação, enquadrando a degradação florestal não apenas como um desafio ambiental, mas como uma crise de saúde pública que exige soluções intersetoriais.

A sessão também contou com a participação de representantes da futura legislatura. O senador eleito Víctor Noriega destacou que o desenvolvimento sustentável na Amazônia deve equilibrar o desenvolvimento econômico, a proteção ambiental e a inclusão social. O deputado eleito Francisco Gatica reafirmou seu compromisso de dar continuidade ao trabalho do PARLAMAZ e fortalecer a colaboração com a academia, o setor de saúde e os países vizinhos da Amazônia.

A sessão foi encerrada com a leitura formal e a apresentação da Declaração sobre o Combate à Malária no Peru e na Amazônia, apresentada pela deputada Karol Paredes. 

Ciência e Política: Construindo Pontes Mais Sólidas

O encontro demonstrou um amplo consenso entre formuladores de políticas, cientistas, especialistas em saúde pública e parceiros de que os desafios ambientais e de saúde da Amazônia estão profundamente interligados e exigem soluções integradas e transfronteiriças. A nova legislatura reafirmou seu compromisso com a formulação de políticas baseadas na ciência e com uma colaboração mais forte entre o governo, a academia e os parceiros internacionais. Os participantes também expressaram um compromisso comum de aprofundar a colaboração institucional entre a PARLAMAZ e o Painel Científico para a Amazônia garantir que as evidências científicas orientem sistematicamente a formulação de políticas.

Para o SPA, esse tipo de engajamento é fundamental para a missão do Painel. Espaços como o PARLAMAZ oferecem um canal direto para levar os melhores conhecimentos científicos disponíveis aos tomadores de decisão que definem as políticas para a Amazônia. A região encontra-se em um momento crítico, mas também em um momento de oportunidade histórica.

As conclusões apresentadas durante a sessão também estão alinhadas com um quadro emergente de políticas e riscos sistêmicos proposto por Carlo Angeles, pesquisador sênior da SPA: entender a Amazônia como infraestrutura crítica regional. Dessa perspectiva, manter a conectividade da Amazônia não é apenas um objetivo ambiental, mas uma condição sistêmica para proteger a segurança hídrica, a saúde pública, os sistemas alimentares e energéticos, a estabilidade macroeconômica e fiscal e a resiliência regional em toda a América do Sul.

 Manter a conectividade da Amazônia é, portanto, uma condição essencial para a resiliência regional e para evitar o ponto de não retorno; chegar a esse ponto exige uma maior integração entre ciência e políticas públicas, uma governança transfronteiriça coordenada e mecanismos financeiros compatíveis com o papel sistêmico da Amazônia, tanto regional quanto global.

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Participe da consulta pública sobre o White Paper uma comunidade científica próspera, integrada e mais equitativa em toda a Amazônia”